Sala Redenção – Cinema Universitário

Três olhares

 

Em dezembro, a Sala Redenção – Cinema Universitário dedica sua programação a três importantes cineastas brasileiros: Eduardo Coutinho, Sandra Werneck e Beto Brant. Eduardo Coutinho é um dos nomes de referência do documentário brasileiro,Pequeno-dicionario-amoroso destacando-se por apresentar um trabalho marcado pela profundidade e sensibilidade com que aborda o universo marginalizado tanto das favelas, do sertão como o das grandes cidades. Nos anos 50, Coutinho estudou cinema no Institut des Hautes Études Cinematographiques (IDHEC) de Paris e quando retornou ao Brasil, em 1960, engajou-se no Cinema Novo. Autor de um dos filmes mais importantes do cinema documental brasileiro, Cabra marcado para morrer (1984) – chegou a ter suas filmagens interrompidas pelo golpe militar de 64 –, que ganhou prêmio da crítica internacional do Festival de Berlim, melhor filme no Festival du Réel, em Paris, e no de Havana. Dirigiu documentários para o Globo e, a partir dos anos 80, passou a dedicar-se quase que inteiramente a este gênero. A programação conta com Edifico Master (2007), O fim e o princípio (2006) Jogo de cena (2007). Sandra Werneck começou também dirigindo documentários, explorando temáticas de cunho social. Foi, entretanto, com dois longas de ficção que seu nome ficou mais conhecido: Pequeno dicionário amoroso (1996) – prêmio de melhor fotografia e melhor montagem no Festival de Brasília – e Amores possíveis (2000), prêmio de melhor filme latino-americano no Sundance Film Festival. Dividiu com Walter Carvalho, em 2004, Cazuza – o tempo não para, maior bilheteria nacional naquele período. Dirigiu Meninas (2006) e, em 2009, lançou Sonhos roubados – ambos contemplados nesta mostra. Beto Brant inicialmente foi diretor de videoclips e de curta-metragens. Em 1997, lança Os matadores, seu primeiro longa-mentragem, que recebeu prêmio de melhor diretor, no Festival de Gramado e no Festival de Cinema Brasileiro de Miami. Seu terceiro longa, O invasor (2001), recebeu os prêmios de melhor diretor e melhor trilha sonora no Festival de Brasília. Lança Crime delicado, em 2004, e Cão sem dono, em 2006 –, sendo este uma adaptação do romance Até o dia em que o cão morreu do gaúcho Daniel Galera. Dotado de um estilo próprio, Brant apresenta narrativas provocadoras – seja pelo conteúdo, seja pela forma de contá-las –, que geralmente deixam os espectadores em suspenso, impactados com os desfechos apresentados. A Sala Redenção apresenta, então, parte da produção destes três cineastas que, “cada um com seu cinema”, têm seu lugar marcado na cinematografia brasileira (Tânia Cardoso de Cardoso, curadora).

 

Cinema e Contracultura

 

A geração nascida no final da ou após a Segunda Guerra Mundial ficou conhecida como baby boom. Foi ao mesmo tempo testemunha e protagonista da ascendência dos jovens como categoria social. Em localidades diversas, como os ricos centrosrider urbanos estadunidenses e as renascentes metrópoles da Europa ocidental (plano Marshall para afastar o fantasma da revolução e do socialismo), os jovens ocuparam espaços e propuseram mudanças. Foram testemunhas da consolidação do modelo econômico que ainda era tangido pela preocupação de garantir o mínimo de bem-estar social nos EUA e na Europa, patrocinadas pelo não desinteressado capital americano e, ao mesmo tempo, acalentados pelo pesadelo nuclear cotidiano. Nesse cenário, as novas gerações cresceram e deram voz aos seus anseios, espalhando-se pelo mundo. Percebidos como mercado, educados para o consumo, divididos em classes e grupos étnicos, os novos protagonistas usaram a cultura como matriz para uma revolução de valores que se multiplicaram por prismas muito diferentes dos pontos de vista tradicionais. A tônica da contestação teve diversos campos: da família, com seus dogmas conservadores; da religião ocidental, que tudo vigiava; da sexualidade, com o amor livre, casamentos abertos, homossexualidade, feminismo; do uso de drogas, como uma expansão da percepção da realidade e das dimensões sensoriais; da política, com a constatação das contradições do capitalismo, e da lógica perversa do sistema em um mundo dividido em dois campos em permanente luta. A realidade permeou o mundo artístico, inundando-o com uma visão muito mais despojada e de liberdade, modificando as artes plásticas, a música, passando pelo teatro e chegando ao cinema. Foi justamente em 24 quadros por segundo que se pode fundir boa parte dos questionamentos. Ocupando com destaque o espaço destinado ao lazer e, ao mesmo tempo, constituído como importante agente de socialização, o cinema foi mediador e construtor dessa realidade por meio de documentários, fantasia verossímil e de delírio audiovisual. Como um agente determinante na elaboração das sociedades contemporâneas, fundindo a ilustração da realidade com o devaneio político, poético ou lisérgico dos roteiristas, embalado pelas trilhas sonoras de protesto ou pela agressividade do rock, o cinema realizou o casamento perfeito com a contracultura e com seus vários efeitos econômicos, políticos e sociais. Chocada diante da negação da até então estética dominante e com o experimentalismo radical, a indústria cinematográfica, assim como a cultural em geral, em um primeiro momento submergiu frente à avalanche crítico criativa, para logo em seguida reagir e digerir a contracultura transformando-a em mais um de seus produtos. Mesmo que a oposição e a rebeldia tenham terminado por se tornar em mercadoria, as marcas e o protagonismo dos que viveram ou filmaram aquela época ficaram como parte da história. O ciclo da Sala Redenção pretende ilustrar aspectos da Contracultura por meio de um ir e vir por épocas diferentes nas quais a produção da imagem foi, de certa forma, a criação de uma realidade. Durante todo o mês de maio, a Sala exibirá filmes que tratam do nascimento, do apogeu e, também, de um certo desencanto com as conquistas de um movimento que marcou a história do cinema e a do mundo (Tânia Cardoso de Cardoso e Nilo Piana de Castro, curadores).

 

 

 

Mostra Carlos Saura

 

Em 2012, Sala Redenção – Cinema Universitário e Arte Sesc - Cultura por toda parte se unem para oferecer algumas programações de cinema. A primeira mostra em parceria será dedicada ao diretor Carlos Saura, grande referência do cinematango espanhol. Saura estudou engenharia, fotografia e acabou por decidir-se pelo cinema. Lança seu primeiro longa em 1959, Los golfos, selecionado para representar a Espanha no Festival de Cannes. Em 1965, escreve e dirige La caza, ganhador do Urso de Prata no Festival de Berlim, que trata das feridas provocadas pela guerra civil espanhola. Neste mesmo ano começa a parceria com o produtor Elias Querejeta, que se prolongará até o início dos anos 80. Em 1972, lança Ana e os lobos, que trata de uma família da aristocracia espanhola. Em 1975, lança Cria cuervos, que ganha prêmio especial do Júri no Festival de Cannes, sendo este um de seus filmes mais conhecido do grande público – também a música que faz parte dele, Por que te vas, fica mundialmente conhecida. Entre 1977-79, lança Elisa, minha vida (1977), Olhos vendados (1978) e com a recente democracia na Espanha, dirige sua primeira comédia Mamãe faz cem anos (1979), outro grande sucesso de público e crítica, premiado em vários festivais, oferecendo um novo olhar sobre a família de Ana e os lobos. Geraldine Chaplin – filha de Charles Chaplin e esposa de Saura na época – empresta densidade dramática aos personagens dos filmes nos quais dramas familiares e denúncia política são o foco. Em 1980, com a colaboração de Antônio Gades, através da mediação do produtor Emiliano Piedras, lança Bodas de Sangue (1981), um balé da companhia de Gades que Saura adapta para o cinema com grande sucesso. Em 1983, lança Carmen, adaptação da ópera de Bizet – também em parceria com Antônio Gades e Emiliano Piedras –, que é premiada em Cannes e selecionada para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 1986, lança Amor Bruxo, considerado por ele como um de seus filmes mais ambiciosos. Tal filme encerra a trilogia dedicada à dança flamenca. Saura, entretanto, dá continuidade aos filmes dos balés filmados como Sevillanas (1992) e Flamenco (1995). Em 1997, Saura parte para Argentina para rodar Tangos, longa que dá a Saura o Prêmio Condor da Associação de críticos Argentinos de melhor diretor do ano. Em 2002, começa um novo ciclo de três musicais. São eles: Salomé (2002), Ibéria (2005) e Fados (2007), este último uma coprodução com Portugal sobre a expressão musical portuguesa por excelência. Nesses últimos três filmes, Saura reitera as mesmas convenções dos musicais dos anos 90, utilizando a luz como elemento dramático, assim como a utilização de um cenário minimalista, obtendo como resultado a mesma sobriedade e beleza, mesmo que não superem os anteriores no que diz respeito à originalidade. Com Taxi (1996) e O sétimo dia (2004), Saura volta a tratar de temas políticos. É um pouco da trajetória deste importante cineasta que a Sala Redenção – Cinema Universitário, em parceria com o SESC, oferece ao seu público. Nela, serão exibidos quatro dos filmes que o diretor dedicou à dança e à música. A mostra Carlos Saura é uma realização da Sala Redenção – Cinema Universitário e Arte Sesc – Cultura por toda parte. Os filmes da Mostra fazem parte do acervo do CineSesc (Tânia Cardoso de Cardoso, Coordenadora e curadora da Sala Redenção – Cinema Universitário).

 

 

Neorrealismo em foco

Segundo Fabris*, não há um consenso entre os estudiosos quanto a uma definição a respeito do que foi ladrao-de-bicicletao neorrealismo italiano. De qualquer forma, tal consenso talvez exista em relação a alguns temas tratados na filmografia neorrealista: o fascismo, a segunda guerra mundial e suas conseqüências, os problemas sociais do campo, o desemprego, a condição das mulheres, entre outros. Para a autora, ele não foi uma escola nem um movimento e que se é possível reconhecer alguma unidade nessa tendência cinematográfica, não é tanto pelo estilo (variável dos realizadores), mas por sua orientação estética em comum entre os vários cineastas que atuaram no mesmo período. Poderíamos destacar principalmente algumas destas características que o diferenciam do cinema hollywoodiano: a utilização dos planos de conjunto e dos planos médios, a câmera que não sugere nem disseca, mas registra; a recusa dos efeitos especiais de montagem, utilização de câmera na mão e plano-sequência, a imagem acinzentada, segundo a tradição do documentário, a filmagem em cenários reais, a utilização de atores eventualmente não profissionais, entre outras. Para grande parte da crítica mundial, o neorrealismo teria começado com Roma, cidade aberta (1945), de Rossellini; já para Visconti o terno “neorrealismo” teria surgido com seu primeiro longa-metragem, Obsessão (1943), cunhado pelo montador Mario Serandrei. Para Fabris, o neorrealismo italiano atingiu o seu apogeu com Alemanha ano zero (1948), Ladrões de bicicleta (1948) e A terra treme (1948). Seus principais expoentes foram Roberto Rosselini, Luchino Visconti e Vittorio de Sica. Mesmo diante da diversidade apresentada sobre uma possível definição para o discurso do neorrealismo, ainda segundo Fabris, é preciso admitir que houve na Itália, entre 1945 e 1952, à margem da cinematografia tradicional, uma série de realizações que tentaram fazer com que o público refletisse sobre as relações entre o homem e a sociedade e mesmo após esse período ela não deixou de alimentar o cinema italiano e mundial, sendo uma referência para as novas cinematografias dos anos 1960. O impacto do neorrealismo italiano no cinema moderno foi bastante grande, influenciando diretamente os cineastas da nouvelle vague francesa, além de outros movimentos como o do novo cinema americano e, até mesmo, do cinema novo brasileiro. Em novembro a Sala Redenção – Cinema Universitário apresenta em sua programação não apenas filmes realizados no período auge do neorrealismo italinano, mas também alguns que, apesar de serem realizados anos mais tarde, dialogam com ele estética e tematicamente (Tânia Cardoso de Cardoso, curadora).

* FABRIS, Mariarosaria. Neo-realismo italiano. In: História do cinema mundial. MASCARELO, Fernando (ORG). Campinas, SP: Papirus, 2006, PP. 191-1219.

 

 

Mostra Quentin Tarantino

Mostra Quentin Tarantino

Em outubro, a Sala Redenção – Cinema Universitário dedica sua programação a Quentin Tarantino. Tarantino iniciou sua carreira escrevendo roteiros, sendo que os dois primeiros vendido foram o de Amor à Queima Roupa (1993) e o de Assassinos por Naturezapulp-1 (1994). Conhecido por seu conhecimento enciclopédico de filmes, por apresentar uma sofisticada mise-en-scène ou, ainda, por ser um cineasta com um grande dominio sobre os diálogos de seus filmes, Tarantino tem como herança o cinema clássico ao mesmo tempo que valoriza os conceitos  de estilo, direção e de autoria dos cineastas da nouvelle vague francesa. Sua paixão por filmes de ação de Hong Kong, de faroeste, de terror italianos e de cinema britânico, faz-se presente em seus trabalhos. Aliás, seus filmes dialogam, fazem referência a outros filmes ou gêneros não apenas no estilo, mas também nas histórias e nos diálogos. Cães de Aluguel (1992), primeiro filme dirigido pelo cineasta,  definiu o dos que se seguiram a esse. Seu segundo filme Pulp Fiction - Tempo de Violência (1994) revolucionou a indústria de filmes independentes e ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1994. Estes dois filmes apresentam um roteiro complexo, com personagens verborrágicos, apresentando histórias dividida em atos com muitas referências pop características que se tornarão marca do estilo de Tarantino. Com Pulp Fiction o cineasta ganhou ainda o Oscar de Melhor Roteiro Original, além da indicação na categoria de Melhor Filme. Seu filme seguinte, Jackie Brown (1997), faz uma homenagem ao gênero blaxploitation, com adaptação de um romance de Elmore Leonard. Segue-se a este Kill Bill (2003) 1 e Kill Bill 2  (2004), filmado com a influência dos filmes chineses de artes marciais, que traz como tema a vingança. Em 2007, Tarantino lança À prova de morte – em parceria com Robert Rodirguez  e outros três cineastas –, que evoca filmes de terrror exibidos em programas duplos nos EUA até os anos 70. Em seu último filme, Bastardos Inglórios (2009), considerdo seu filme mais perfeito e mais bem-dirigido, atrave-se  a tratar da Segunda Guerra Mundial de forma original e arriscada, já que aborda a questão do holocausto e do nazismo, gerando algumas críticas quanto a leveza e e o humor ambivalente de tal filme. Para Mauro Baptista*, “o cinema de Tarantino recusa a lição de vida do melodrama, cara ao cinema americano. Sua ideia de moral se funda em pequenos códigos que valorizam a lealdade, a amizade, a palavra para cumprir acordos (p. 139). Durante toda a segunda quinzena do mês de outubro, o público da Sala Redenção poderá assistir aos filmes escritos e dirigidos por este cultuado cineasta (Tânia Cardoso de Cardoso, curadora).

 

* BAPTISTA, Mauro. O cinema de Quentin Tarantino. São Paulo: Papirus, 2010.

 

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